Adorava pedir carona, não tinha
carro, trabalhava fora, tinha que pegar ônibus, cansada, com a vontade de
chegar logo em casa, fazer um pouco de economia… Tudo isso me incentivava a
ir até o trevo e pedir carona. Modestamente vestida, com bolsa e livros na mão,
não ficava muito tempo exposta sob o sol ou sob a chuva, não tardava e sempre
alguém parava para me oferecer carona, não sei se por conta das conversas e da
minha postura nunca passei por situações constrangedoras ou ameaçadoras, sempre
foram muito gratificantes e, na maioria das vezes, ampliava minha longa e
riquíssima lista de amigos.
Esqueci de me apresentar, sou professora,
sempre gostei de ensinar, adoro ouvir histórias, principalmente de grandes
amores, tenho muita esperança na humanidade, acredito na honestidade, torço
pela felicidade de todo mundo, tenho fé, converso muito com Deus e Ele me
atende sempre, reflito sobre tudo que acontece no meu dia e, no outro, procuro
ser melhor. Ah! Também curto a natureza. Na minha cidade passa um rio, por
conta disso, há muitas cachoeiras… O que é uma bênção!!! Ouvir o barulho das quedas d´ água, a
sonoridade, do vento, o canto das aves, as pegadas no chão, a chuva no rosto…
É sempre grandioso todo este contexto, para agradecer, cada segundo, a maravilha
de usufruir todas estas mordomias divinas, sempre em meu proveito. Isso, por si
só, basta para ser feliz.
Foi em uma dessas caronas da vida
que conheci um feirante, que me ensinou uma grande lição de vida.
Era fim de tarde, estava na saída
de uma cidade bem pequena, junto, esperando uma carona, o chefe da
administração do Posto de Saúde, um senhor já de idade, muito educado e bem
humorado. Ele estava bem gripado e com uma pasta pesada nas mãos. Eu, sempre
falante, dei sinal com a mão, indicando que queríamos carona, era uma Kombi bem
velha. Parou. Entramos. O feirante, muito simples, falava pouco, a conversa
tinha que ser reduzida, pois o barulho do motor era ensurdecedor. Como não
havia bancos de passageiros, por conta das verduras, sentamos apertados os
três, na frente. Nas descidas, o motorista colocava ponto morto na marcha, para
economizar gasolina, o tanque estava na reserva. Começamos a ficar com medo,
poderia travar a direção… A estrada era de terra, cheia de buracos e muito
sinuosa… Aos trancos e barrancos, chegamos na cidade. Bem na entrada, o
verdureiro parou sua Kombi e nos disse: Até aqui está bom? Vocês acabam de
chegar a pé, pois moro aqui por perto e estou sem gasolina. A correia de um
pé da minha sandália rebentou, o senhor do Posto de Saúde, com febre, suando
muito, com sua maleta pesada, começou a rir da situação. Começamos a caminhar:
eu segurando uma sandália na mão, só com um pé calçado, no asfalto quente; o
senhor segurava com dificuldade a incômoda maleta. Só para entender o contexto,
estávamos no lado oposto ao que morávamos… O sol ainda estava forte… A
subida ficava cada vez mais inclinada… Rimos muito, compreendendo o motorista
que devia estar cansado, sem dinheiro, sem gasolina, com vontade de chegar…
Não podia dar-nos o luxo de nos deixar na porta de casa. E, durante muito
tempo, quando me encontrava com o companheiro acidental de carona, lembrávamos
do fato com muito humor, carinho e agradecimento.
Passado algum tempo, estava eu, de
novo, pedindo carona no trevo. Estava difícil aquele dia, meio desanimada, vejo
um caminhão possante, grande, cores fortes, imponente. Nem me atrevi a dar
sinal, era mais um que iria passar e no máximo buzinar. Porém, de repente,
pára, dá ré até me alcançar. Da janela o motorista grita: Entra! Vamos!
Também moro na sua cidade! Nossa! Como ele me conhece, pensei. Entrei no
seu caminhão. Que maravilha! Novinho em folha, com rádio, cama, ventilador, um
decalque de Nossa Senhora Aparecida no pára-brisa, minha madrinha. Sentei no
super banco, espaçoso, confortável; tudo com muita ventilação e com cheiro de
fábrica… Você não está me reconhecendo? Perguntou o motorista. Já
dei carona pra você e um senhor, há muito tempo. Tinha uma perua Kombi,
muito velha, que sempre andava com o combustível na reserva... Comecei a
rir e confirmei com a cabeça a lembrança saudosa, pois o senhor que me
acompanhava na carona, já havia falecido, tinha por ele grande afeto, grande
amigo! Aí, com o coração entusiasmado, o gentil motorista, contou como
conseguiu melhorar de vida: muito trabalho, perseverança e economia. Passávamos
por uma moita de bambu, quando fez a rica metáfora: Quando você realmente
deseja alcançar uma coisa, você consegue. Está vendo estes bambus, se eu quiser
posso arrancar suas raízes com as mãos, tenho só que acreditar. E
começar a fazer. Quanta filosofia! Fiquei encantada com a transformação do
motorista verdureiro. Nos pés, continuava o chinelo de dedo, mas trazia um
progresso financeiro evidente, fruto de seu intenso trabalho, garra e
determinação. Mostrou-me um envelope de papel com a “féria” do dia, que
maravilha!!! Deixou-me no centro da
cidade com um largo sorriso, agradeci, desejei que seu sucesso fosse uma
constante, dobrei a esquina e segui em direção à minha casa, com uma nova visão
do mundo, das circunstâncias e da força do poder da vontade.
Esta história acompanha-me como
motivação de vida, para não a perder de vista comprei um quadro a óleo que tem
uma grande moita de bambu, meu símbolo-meta.
O coração valente, humano e
destemido do caminhoneiro guardo, com muito carinho, na lembrança e nas
determinações que a vida apresenta-me.
Quando vejo um caminhoneiro na
estrada, rezo para que faça uma boa viagem, sem problemas, com tranqüilidade e
alegria e que tenha a mesma sorte que meu herói verdureiro.