Viver e sobreviver

                                              Marly Terciotti

Ontem, ouvi um barulho de asas…parava. Daí a pouco, continuava…até que avistei no alto da parede da garagem dos fundos, que tem um recuo, um passarinho que se debatia. De repente ele cai, vou atrás, bem pequeno e pretinho, queria voar, mas a altura era insuficiente, o preparo físico também. Tentei pegá-lo….ele voava baixo e rápido.

Olha quem estava, neste momento, do meu lado, Mimi, a gata da casa, toda atenta aos movimentos do passarinho…fiquei preocupada. Sai correndo a procura de uma vassoura, estava pressentindo o fim trágico do passarinho abandonado.

Foi tudo uma fração de segundos: o passarinho adentrou a casa, num voo rasante, a gata veloz atrás e eu e a vassoura por último.

Cheguei a tempo…apenas uma pena do rabo se perdeu e algumas penugens da cabeça. Gritei, joguei a vassoura na gata, gritei…resgatei o passarinho com vida, todo encolhido de medo. Enrolei-o em um pano, como canudo de festa. Estava momentaneamente salvo.

Saltou do pano, improvisado em abrigo e foi parar debaixo do fogão a gás. Permaneceu no interior da casa até hoje, na hora do almoço, quando atingiu sua volta à natureza, no quintal… pousou num vaso de plantas.

Daí para frente, não tenho mais notícias do sobrevivente.

Fiquei pensando na fragilidade da vida, nos gatos humanos atentos a destruição, nos esconderijos da alma, nos disfarces dos canudos da improvisação, nos salvadores de plantão, na finitude de cada momento…

Será que salvei o passarinho? E depois, será que a gata não vai pegá-lo novamente, sem alguém estar por perto? Somos salvadores de alguém? Temos pretensões verdadeiras? …

Ser passarinho, ser gato ou sobrevivente? …

São José do Rio Pardo, 21 de agosto de 2019

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