Faz um mês que combinei com a Luzia para me ajudar nos serviços domésticos e, quando preciso sair, olhar minha mãe. Minha mãe é uma benção! Tem 94 anos, é lúcida, tem uma memória fantástica, caminha sozinha, dorme sozinha, come sozinha, não usa fraudas, não toma remédios…uma benção! Apenas não enxerga direito, ouve mal e reclama de dores no corpo. Muito pouco, para tanta vivência! Tenho preocupação, se ela fica sozinha, em atender porta e telefone. No mais, ela fica numa boa. Liga a TV na Rede Vida, ou SBT, que possuem os programas que ela gosta, e tudo certo.
A Luzia vem três manhãs, segundas, quartas e sextas.
Estou aproveitando para fazer aquela faxina…desde o teto até janelas, guarda
roupa, gavetas, armários, geladeira, cortinas, porão, banheiros, quintal…muita
coisa foi descartada, doada ou mandada para o lixo. Minha casa está limpíssima,
perfumada…uma delícia!
Aproveitando esse embalo, pintei os vasos, podei as plantas e tirei todas as grades do quintal para pintar. Trabalhei quase até à noite. Aí as grades, que foram pintadas com tinta esmalte, não secaram, para as recolocar, tinha que esperar até o dia seguinte. Fiquei preocupada com as duas bocas de cano sem grade, uma, por onde escorre a água de chuva e a outra, que vai para o esgoto. Peguei dois panos de limpeza e tapei os buracos.
À noite fui preparar aula de literatura, ia dar aula no sábado, no Projeto Educar. Escutei um barulho, parecia de bacia, de balde ou alguma grade que caiu…pensei no vento, em gatos…Fui até a área de serviço. Acendi as luzes, dei uma examinada…parecia tudo certo, no lugar. Dormi sossegada.
No outro dia, sexta, a Luzia chega e pergunta: o que
vamos fazer hoje? Vamos recolocar as grades pintadas e lavar o quintal.
Começamos, a Luzia sentiu sede, foi beber água no filtro da área de serviço.
Escuto um grito! Um rato !!! Um rato!!!
Desceu as escadas voando…branca…nem conseguiu tomar
água. O visitante inesperado estava debaixo da mesa de passar roupa…enorme…segundo
ela.
Ficamos paradas, sem saber o que fazer…ela tinha medo e
eu não conseguiria matá-lo, tenho dó. Antes de descer as escadas, a Luzia teve
a presença de espírito de fechar a porta da cozinha, para que o ratão não fosse
para dentro da casa.
Lembro, então, de verificar os panos das bocas dos canos, um estava no lugar; o outro, do esgoto, o danando do rato, havia tirado o tampão de pano…por ser grande, não teve nenhuma dificuldade de sair, afastando para dentro do cano o empecilho, penso eu.
Corri até a loja que vende ração, perto de casa e pedi para o senhor, que trabalha lá, fosse a minha casa matar o intruso. Ele estava atendendo, disse que assim que pudesse, iria…ficamos esperando o matador de rato, com vassouras na mão, no último degrau da escada. O nosso salvador chega com um cabo de enxada na mão. Sobe destemido as escada. Procura o rato por todos os lugares…nada. Nem sobra…deixou alguns vestígios: as, fezes, roeu a parte de cima do melão e, um pedaço do sabão de barra.
Orientou-me, o senhor exterminador, a comprar veneno de rato e colocar em alguns lugares, repetir a dose por uns três dias…que isso iria acabar com ele, com toda certeza.
Comprei dois pacotes do veneno infalível…coloquei em
recipientes por vários lugares da casa.
Fiquei por vários dias verificando se o inquilino indesejável,
havia comido o alimento fatal. Que nada! Tudo no lugar, nem um grão foi comido,
nem vestígios. Depois de uns três dias, recolhi o material mortal. O rato
desapareceu. Sumiu…
Fiquei feliz em não precisar matá-lo, ficaria muito mal. Ele estava no esgoto, seu habitat, eu, tirando as grandes, abri caminho para sua saída …agora, matá-lo? Seria uma judiação!! Para onde ele foi, fico pensando…voltou para o esgoto? Foi para alguma outra casa? Será que o mataram em outro lugar? Ou ele ainda permanece na minha casa?
A história terminou bem para todos, ele saiu vivo e eu não me tornei responsável pela sua morte …maravilha!!!
A magia do seu desaparecimento, foi um golpe de mestre.
São José do Rio Pardo, 27 de agosto de 2019.